Torcida se revolta com abandono, faz campanha e reforma o Canindé com doações

Publicado em 16/05/2018 às 22:39h

Canindé recebe cuidados de seus torcedores (Foto: Artur Cabreira Gomes)

Artur Cabreira Gomes nasceu em 1956, ano em que a Portuguesa comprou o terreno do Canindé. Ainda jovem, viu tanto o clube social quanto o estádio serem construídos. O pai dele, por exemplo, juntava o pouco que tinha para comprar material e doar para a Lusa.

O estádio foi inaugurado em 1972. E a história se repete com centenas de lusitanos, cujas famílias contraíram a Portuguesa com doações. O clube, porém, não tem mais a atividade de antigamente. E muito menos o cuidado que havia naquela época.

Os torcedores da Lusa têm se deparado com cenas de abandono. A tristeza tomou conta. Na disputa da Série A2 do Campeonato Paulista, o clube quase teve problemas em partidas durante a noite, já que os refletores contavam com diversas lâmpadas queimadas.

Os banheiros? Sujos. As cabines de imprensa? Com goteiras. O fosso? Precisando de limpeza. Uma reportagem que apontava a deterioração do Canindé mexeu com a torcida, que nos últimos anos convive com o risco de perder o estádio em leilão.

– A gente estava vendo o estádio abandonado, largado, e aquela reportagem foi a gota d’água. Em vez de ficar revoltado com a reportagem, como muitos, eu vi que realmente estava inviável. Eu vi o Canindé nascer, então resolvi correr atrás – conta Artur Cabreira.

Foi aí que o torcedor de 61 anos reuniu outros vários lusitanos e iniciou uma campanha colaborativa. Tudo começou em grupos de WhatsApp. Em pouco tempo, ele já havia conseguido a doação gratuita de 31 lâmpadas de refletores e de 15 reatores.

– Para as arquibancadas, resolvemos adotar rifas. Conseguimos vender mil rifas e arrecadamos o necessário para comprar o material e pagar a mão de obra. Dois torcedores que são engenheiros fizeram o orçamento, e estamos pintando – detalha Artur.

 
Grupo se organiza para recuperar o Canindé; arquibancadas são pintadas (Foto: Artur Cabreira Gomes)

A diretoria da Portuguesa não deu qualquer apoio à iniciativa, mas também não impôs nenhuma dificuldade ao grupo. A alegação é de que o clube não tem condições financeiras de promover esse processo de revitalização do estádio do Canindé.

Quase metade do primeiro anel da arquibancada já foi pintada. O objetivo é que a Lusa estreie na Copa Paulista, em agosto, já com a pintura de toda a arquibancada concluída. Mas se engana quem acha que o grupo pretende parar por aí. Há mais metas.

– A gente pretende pintar a entrada do portão principal do estádio, os dois vestiários, a sala de imprensa e as cabines. Também vamos arrumar os vazamentos nas tribunas, consertar a parte elétrica e principalmente dar um jeito nos banheiros do Canindé – garante Artur.

O grupo reconhece que esse não é o método ideal e que o clube precisa se tornar profissional. No entanto, os lusitanos cansaram de esperar iniciativas da diretoria e ver o clube se deteriorar a cada dia. É uma ação de emergência e de amor à Portuguesa.

Os torcedores não podem entrar em campo e trazer a Lusa de volta à elite, mas já provaram que se depender deles o Canindé jamais será perdido. Quem ajudou a construir o estádio se une novamente, 46 anos depois, para revitalizar o orgulho rubro-verde.

* Luiz Nascimento, 25, é jornalista, chefe de reportagem da Rádio CBN, editor/diretor do Acervo da Bola e blogueiro da Portuguesa por 10 anos, quatro deles no GloboEsporte.com. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. Fonte: GE


PUBLICIDADE