Paulo Autuori critica CBF, fala dos desafios na formação de novos craques e critica qualidade do jogo no Brasil: "Muito ruim"

Publicado em 06/12/2017 às 07:54h

Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador

Paulo Autuori está no futebol há mais de 30 anos. Já passou por diversas experiências. Elas vão de países, clubes e até funções já desempenhadas durante a sua longa carreira. Conquistas, bons e maus trabalhos, turbulências, críticas... Você pode gostar ou não. Querer ou não o mesmo no seu clube. Mas se trata de uma figura que sempre merece  ser ouvida. Mais que isso, se trata de um eterno incomodado. Um cara que sempre quer e quis mais, independentemente da época e do que construiu ao logo de sua vida dentro do esporte.

Não dá para negar que Autori é da velha geração. Por outro lado ele não está nem aí para os 61 anos que tem. Para ele juventude é mais que isso. Está na cabeça, na vontade de evoluir ou não. "Existe muito jovem com a cabeça muito velha por aí", diz o ex-coordenador metodológico do Atlético-PR. Aliás também afirma ser "lamentável" o debate sobre "boleiro vs estudioso. Nesta longa entrevista a ideia foi falar apenas de futebol. Inclusive ela foi feita no início do último mês, sem saber da sua saída do Furacão, que foi divulgada no último domingo.

Neste papo exclusivo com o blog, o ex-treinador e agora gestor (ele mesmo fiz que não voltará à antiga função) faz duras críticas à CBF e, principalmente, ao nosso calendário. Fala da falta de identidade nos clubes brasileiros e é bastante critico quanto a qualidade do futebol jogado no país. Também cita as mudanças no futebol, da falta do "futebol de rua" e o quanto isso influencia na formação de novos craques por aqui.

Outro assunto abordado foi Rogério Ceni, com quem ganhou a Libertadores de 2005 com o São Paulo. Vê o agora treinador como um grande potencial na nova carreira e comenta sobre as dificuldades que o mesmo teve ao assumir a equipe que é ídolo durante esta temporada. Sua maior cobrança, inclusive, é o respeito ao processo, coisa rara aqui no Brasil quando o assunto é contração e queda de treinador. 

Veja na íntegra a entrevista:  

Depois de tantos anos como treinador, até com passagens fora do Brasil, o que tem te motivado nessa função de mais coordenação? O que tem encontrado de tão diferente?

Na verdade é uma função que, na maneira que o Atlético-PR me propôs, não existe no futebol brasileiro. Até porque eu não sou um gerente executivo, por exemplo. Eu não trato com negociações, com dinheiro... Eu mesmo deixei claro que não queria me envolver com isso. Minha área é totalmente técnica e no que isso pode refletir em questões estratégicas para o clube. A ideia é que, no futebol, você tenha alguém que se aprofunde em análises não só de contratações de jogador, mas também de profissionais que possam trabalhar aqui. Ter uma palavra que a direção creia, que seja importante e prioritária na qualidade profissional. Aqui se aposta muito em Recursos Humanos. Então apostamos também de forma infraestrutural, organizacional e metodológica. Mas nada adianta disso se não tivermos capacidade profissional. Gente com cabeça aberta para buscar novos conhecimentos, que não tenha preconceito de utilizar novas ideias. Falo isso porque o futebol é preconceituoso com isso. Então meu trabalho mira muito estas questões.   

Muito se fala hoje em não ter apenas um grande treinador, mas um staff de qualidade e que possa ser delegado à funções importantes. Como criar uma identidade de jogo? Como isso passa por escolher corretamente jogadores, um perfil de treinador? 

Isso nasce de uma situação que você precisa ter muito cuidado e respeito com as histórias dos clubes. Entender o que cada entidade busca. Ver o porquê de tantas pessoas acompanhar o clube, o que tanto identifica nelas... Tem que ter a ver com esse torcedor. Claro que existem outras coisas, mas essa é uma bastante importante. Cada clube traz consigo algumas características próprias durante a história e aqui no Brasil mais acentuadas por conta da diversidade cultural. Nosso país tem dimensões continentais. Então isso fica mais forte. Então o primeiro passo é respeitar essas origens. A partir daí sim, dentro de uma ideia de atualização, buscando a tendência do que é jogado agora, contextualizar tudo isso e, de alguma maneira, manter essas tradições. Sempre dentro de uma ideia clara de completividade que a cada dia fica mais exigente. A cobrança só aumenta neste sentido. Dentro dessa situação você precisa entender o por quê. Quando se fala em metodologia nada mais é que você ter uma ideia daquilo do que se quer fazer e como colocar isso em prática, como vai operacionalizar. A partir daí você cria sistemas, precisa ser algo sistemático. Não tem como fugir disso para se ter lógica. É necessário mirar o todo. Não podemos fazer uma análise isolada do futebol jogado em campo com decisões tomadas na gestão, por exemplo. Marketing, financeiro, jurídico... Hoje em dia é importante isso. Até na questão de decisão de comando. Você tem uma ideia central no clube, procura profissionais com perfil parecido e que possam agregar em conceitos táticos e faz entrevistas com eles isoladamente. Só depois define. Um processo seletivo desse cria um comprometimento maior de todas as partes.  o que eu vislumbro em termos de futuro, uma lógica para as coisas. Que não aconteçam coisas apenas circunstanciais. 

             
O que tem achado da formação de jogadores no Brasil? Concorda que precisamos nos atualizar nestas questões também? Quais são as mudanças mais significativas dos últimos anos na formação? 
  
Tem que desenvolver um jogo de futebol que tem a ver com excelência infraestrutural, estrutural e metodológica. E não é fácil fazer isso. Principalmente respeitando as tradições de cada clube. É um processo. Não é simples. Você vive competindo, vive se salvando por resultado. Então tem que entender como fazer, estar atento. E pra tudo isso, temos que estar ligado na formação destes jogadores. Ele precisa entender isso desde cedo e com o nível de complexidade sempre do menos para o mais. Entendo isso como uma progressão pedagógica. Tem que ser assim. Para você fazer as coisas com consciência e entender o por quê, esse processo precisa ser respeitado. Primeiro se aprende a somar, para depois ir para as operações mais complexas e no futebol é assim também. Eu concordo muito com o que você falou. O jogar mudou. As pessoas precisam entender que é futebol, mas que as maneira como se joga passou a ser diferente. Os interesses são maiores, os valores são diferentes também. As exigências e a falta de tolerância também só crescem. Você vê lá na Alemanha. O problema não é o Ancelotti que foi mandado embora. Se você ver isso está crescendo por lá também, teve mais gente saindo nos últimos anos. Até em outros países essa tolerância vem diminuindo. 

E como o "treinar" entra nessa conversa? 

Precisamos entender que quem faz futebol são as pessoas. E é da sociedade que vem os potenciais jogadores. Eles vão carregar consigo os maus hábitos, os vícios, má formação escolar... Isso tudo influencia no jogar de hoje. Eu costumo sempre dizer que dá para olhar como um bolo de chocolate. O jogar é o bolo. Então, quando você corta uma fatia, ela representa uma parte disso. Então é importante você trabalhar para essa fatia estar boa. Pessoal costuma reclamar: "Ah, esse negócio de campo reduzido, perde-se isso ou aquilo". Primeiro tem que se entender o que você pretende trabalhar. Como você vai criar comportamentos é importante que estes atletas tenham um grande número de ações. Ele repetindo muitas vezes, aquilo vai virar algo habitual para ele e vai se desenvolver dentro da partida. E isso não é e nunca será engessar alguém. De maneira alguma. Só pensar na pessoa que rói unha... Você vai pegar e engessar a mão da pessoa? Não. Você vai estimulá-la a parar de fazer aquilo, fazer com que crie um outro tipo de comportamento até que vire uma coisa consciente. Então você vai utilizando o campo menor, diminuindo os espaços, colocando gente dentro dele... Aí tem diversas maneiras de se fazer. Você usa mais horizontal, abrindo mais o campo, ou ao contrário, tentando gerar profundidade. Aí depende do que você quer trabalhar. Nisso você trabalha até questões físicas e fisiológicas. Você quer mais intensidade? Quais os intervalos entre um estímulo e outro? São respostas que você precisa ter e que dependem da sua análise da necessidade ali. Por isso os estafes hoje são maiores. E mais que multidisciplinares eles precisam ser transdisciplinares, ou seja, eles precisam interagir entre eles. Dentro dessa ideia, não se forma apenas jogadores, mas novos profissionais. Auxiliares, preparadores... Que o clube possa olhar primeiramente para dentro e depois pensar em buscar fora, seja jogadores ou qualquer tipo de função. 

GAZETA PRESS
Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada
 
Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada

Ainda em cima da formação, Paulo. A gente vem de um histórico de formação muito vindo da rua, do futebol praticado de uma forma mais lúdica... E de certa forma isso estimulava muito nossos jogadores a resolverem problemas dentro de uma partida de futebol, de buscar um improviso. Como a gente se adapta a um cenário que cada vez mais os espaços públicos são menores e menos explorado? Existe alguma forma de lidar com isso sem perder essa nossa essência?

Essa é uma pergunta muito importante. Ela sempre aprece no nosso dia a dia. Antes a garotada tinha muito menos opções com relação à diversão e esportes. Alguns esportes foram crescendo muito e deram também uma condição de ascensão social. E isso era praticamente monopolizado pelo futebol. Hoje você tem o vôlei como um exemplo. Antigamente você não tinha aptidão para jogar futebol, mas era praticamente forçado a fazer porque era a oportunidade que você tinha. Você era forçado a crescer dentro da modalidade. A gente passava o dia na rua jogando bola. Fazia isso de forma natural, inata... E tentava sempre repetir os gestos do seu ídolo. Nem os pais ficavam ali dizendo para fazer isso ou aquilo. Os pais estavam em casa chateados porque o filho só queria saber de futebol. Então você buscava jogadores com 17 anos para os clubes. Já ia direto para um infantil, infanto juvenil... A rua proporcionava a estes atletas de forma inata determinadas situações que o jogo pede até hoje. Por exemplo: você jogava com idades diferentes, com biotipos e tamanhos diferentes, não havia árbitro nas peladas e falta era falta, os dois times tinha que concordar se não a porrada comia... Se você estivesse envolvido com gente de mais idade, com mais físico, você não podia afrouxar. E aquilo, de forma natural, desenvolvia a coragem. Tem gente que fala: "poxa, eu arrancava o tampão do dedo e mesmo assim continuava. Jogava o dia inteiro!". Isso desenvolvia sua exposição à dor de forma maior, do quanto aguenta ela. Acho que o jovem desfrutava mais do jogo. De 6 a 12 anos de idade é quando tudo acontece no sistema nervoso central. É nessa faixa que você desenvolve as coisas que são duradouras. E você tinha mais espaços públicos para desenvolver tudo isso. Tinha o futebol de salão, que hoje é o futsal e continua ajudando muito. Então a grande pergunta que a gente deve se fazer é: era só a qualidade técnica que desenvolvia aí? Só habilidade? Não é só isso! Como eu mencionei, tem mais coisas. Mas aí a gente pensa. Você vai trazer o espaço público de volta? Não. Mas você pode minimamente nas suas seções de treino trazer esses conceitos que eram desenvolvidos de forma inata. O grande desafio é como fazer isso. E é neste momento que tem que entrar a capacidade criativa das comissões técnicas. E existem situações assim. O Cruzeiro, por exemplo, foi fazer pelada na rua. Então porque não criar um festival que as categorias vão jogar entre elas, de uma forma que eles mesmo se organizem, formem as equipes trabalhando com idades diferentes. Isso para que eles tenham de novo o controle disso, para que se sintam úteis e participativos. Sintam que a ideia deles também é importante.         

De uns tempos para cá no Brasil tem surgido uma discussão, até que burra, sobre o treinador novo e o antigo, o moderno e o velho... Você, independentemente de resultados que vinham ou não e da sua idade, sempre se mostrou um cara que buscava atualização. Como você tem visto isso no cenário atual? Qual a relevância deste tipo de debate? Não acha que é algo que já devíamos ter ultrapassado?

É lamentável. Às vezes a gente se pega discutindo sobre velha guarda e nova geração de treinadores. Primeiro que você vai contratar um treinador no Brasil e vem o perfil: "Ah, eu quero um disciplinador. Não, eu quero um cara de diálogo". Não existe nada disso. Você tem que trazer um cara que conheça futebol, que exerça bem a função profissional dele. Esse cara precisa sim ser um bom gestor de pessoas, até para poder aplicar o conhecimento que tem. E depois entender a característica da personalidade dessa pessoas. Se é mais duro, se é mais distante do jogador... Isso é de cada um. A gente está longe de um processo seletivo. De colocar em prática aquilo que o clube quer. E a grande questão é que o clube não sabe o tipo de futebol que quer jogar. E assim vai indo. Não tem a coragem de enfrentar as dificuldades de imprensa, de torcida... Esse é um grande problema. Ninguém tem convicção de nada quando contrata. Aí a gente entra nestes tipos de discussões absurdas como a que você citou. Conheço muita gente de idade já, mas que está com a cabeça totalmente antenada e atualizada. E não só no futebol isso. E outras que são novas ainda, mas como diz o Mário Sérgio Cortela, "jogaram a âncora nas águas passadas e agora estão presos". O velho ao meu ver é isso. A idade é inevitável para todos nós. Agora, você vai ficar velho só se você quiser. Tem que sair do lugar. Agora a conjuntura do futebol brasileiro em si, ajuda. Você vai para um futebol inglês ou alemão, por exemplo, a ideia é sempre de te jogar para cima. Aqui o sistema faz você não pensar em evoluir. Um exemplo bem prático e sem fugir muito da pergunta: o nosso calendário é fator gerador de muitos problemas. Vou te dar apenas um: ele simplesmente não permite o desenvolvimento dos treinadores. Você treina, joga, recupera, viaja, joga, recupera... Isso faz com que você ao menos tenha tempo de colocar suas ideias em prática. Então vira um trabalho de papo e vídeo. Você acaba tendo até que diminuir carga de treino, por exemplo. Se não estoura os caras. Aí você trabalha o mais simples e o que menos desgasta: bola parada. Hoje mesmo você vai lá e contrata um jogador porque ele é bom na bola parada. Não se contrata porque ele interpreta bem o jogo. São todas situações que o calendário acaba te induzindo.  

                                       
Até na questão de contratar um jogador X que é bom nisso, nisso e aquilo, mas também tem isso e isso que ainda pode ser melhorado... Você acaba não tendo tempo para fazer dele um jogador melhor.

É por aí. E eu te dei apenas um exemplo com relação ao calendário. Mas tem muitos mais. Por isso eu sou um grande crítico a isso. Enquanto nós não mudarmos o calendário, não adianta. As ideias podem ser muito boas, mas vão sempre chegar de forma isolada. Sem interagir com todas as outras. E para você florescer, crescer, uma ideia precisa estar conectada à outra. Tem que ter uma visão sistêmica, uma visão do todo. É dentro de tudo isso que acho necessário se elevar o nível do debate. Refletir. E isso tem que vir por parte institucional. Não tem que vir de forma individual. E nossa entidade máxima no futebol não está preocupada com isso. Está sempre priorizando a Seleção, os patrocinadores... Sobre o futebol como um todo não tem grande preocupação. Não se debate. Vou te dar um exemplo: pensaram em fazer um campeonato sub-23 agora no final da temporada e em 40 e tantos dias. Refletiram sobre isso? Construíram isso junto com os clubes? É assim que as coisas acontecem. Aí falam que os clubes não quiseram participar, que deram a ideia. É por isso que eu critico tanto essas coisas e vou continuar assim. É muito do que tem na CBF e das pessoas que comandam lá hoje. E olha que tem muita gente de qualidade lá dentro, mas individualmente, com iniciativas próprias e não da entidade em si.

Você citou a questão de dar tempo para os treinadores poderem trabalhar suas ideias. Mas o Atlético-PR andou tendo problemas neste sentido nos últimos meses, com seguidas trocas no comando. Inclusive você deixou o cargo por um tempo exatamente por isso. O que de fato aconteceu? Como você enxerga essa alta rotatividade de treinadores no Brasil?

O que nos falta são ideias. Por isso não temos processo. Você tem sempre que partir de uma ideia inicial. Aí sim você vai ver como você vai operacionar isso e existem pessoas responsáveis  por esta etapa. Neste meio começam a aparecer situações que você não esperava. É preciso parar, refletir e tentar ajustar o entorno. E tem a ver com o que aconteceu aqui comigo. Quando o Eduardo Baptista veio eu falei com o clube muito claramente que, na saída do treinador, que a gente precisava agora terminar esse ciclo, eu sairia também. Que a gente precisaria passar por um processo, por eu estar ali já um ano e meio, enxergava todo esse cenário. Tive que tomar uma posição. Deixei claro isso no dia que o Eduardo veio. E podia ser qualquer outro treinador, eu faria a mesma coisa. Que se quebrassem no meio do caminho eu ia estar fora do projeto. E isso aconteceu mesmo. E no geral eu não tinha motivo para sair, o clube também não queria. O trabalho estava se desenvolvendo. Só que eu cravei. Eu acho que quem tem que pagar a conta não são só os treinadores. No momento que as coisas não vão bem, que alguém tenha os culhões para dizer que sai também. Até porque eu também tive parcela de culpa em tudo, não foi só o treinador. Quando eu entrei nessa função eu me propus a fazer isso. E eu sai mesmo o clube não se conformando. Cheguei a negociar com alguns clubes, teve contatos. Até me querendo como treinador e eu recusei, pois não quero mais isso aqui no futebol brasileiro. O Atlético-PR entrou no meio e garantiu que seria concorrente, que eu estava livre, mas que eles ainda queriam contar comigo. Chegamos à conclusão que era é o momento de esperar o ciclo do profissional. No final de tudo, iriamos analisar. A ideia é sair do lugar comum, não cair mais em contradição.  

DIVULGAÇÃO / VASCO
Paulo Autuori comandando o Vasco
 
Paulo Autuori comandando o Vasco

Você tem uma boa identificação com o São Paulo e acompanhou, mesmo que de longe, a passagem de Rogério Ceni como treinador do clube. Acha que faltou processo e paciência no caso do ex-goleiro? 

Primeiro que eu tenho certeza que o Rogério tem todas condições para ser treinador. E a gente vê isso pelo que ele mostrou durante toda sua carreira como jogador. Isso é claro para todo mundo. Agora terá mais uma oportunidade para isso. É um cara com um nível intelectual acima da média e que tinha ideias claras. Sempre foi um profissional que se posicionou. Isso é uma das coisas que mais admiro nas pessoas. E se posicionar independente de local, pessoas... Mas isso gera alguns receios, ainda mais dentro do ambiente do futebol. Eu mesmo sempre gostei de ter caras assim por perto. Agora, a maneira como aconteceu ninguém mais do que ele e o pessoal do clube sabem. Eu não posso entrar mais fundo nisso porque é algo que não participei. O que eu tenho é uma visão superficial do que aconteceu. Conversei com ele antes, conversei depois... Mas é aquilo que eu digo. Você tem que refletir muito. Tem que ter ideias. Só que existem vários fatores que são determinantes para que essa ideia vá para frente ou não. Aqui no Brasil, pela ideia de fazer as coisas para agradar pessoas, se perde em vários momentos, e isso vai além do futebol, deixa de tomar medidas que são impopulares, mas que são necessárias. Eu sempre cito Margaret Thatcher para falar do papel do líder, porque ela sabia que tomaria decisões impopulares e aguentou o tranco para isso. Lá na frente se colheu os frutos. Por isso eu valorizo as ideias. Hoje estou aqui, amanhã posso estar lá... Mas eu tenho orgulho de estar tentando quebrar alguns paradigmas. A gente tem que ter coragem de tomar algumas decisões. Isso não quer dizer que vai ganhar, longe disso, são coisas diferentes. Mas são posições que você começa a estabelecer quando tem ideias claras e lógicas. Voltando a situação do Rogério, eu acho que teria de ser um processo melhor construído em relação à ele, como ídolo do clube. Era importante entender isso e, junto com a direção, construir algo mais sólido. Eu mesmo sou obsessivo em criar cenários. E no futebol você tenta sempre criar um cenário positivo e esquece de criar o negativo, sem se preparar para o mesmo. Depois as coisas acontecem e você não tem soluções e respostas. Por isso é importante você construir as coisas com lógica, para que tudo tenha consistência. Para passar por períodos de turbulência, porque tudo e todos passam por isso. Mas sempre evitando acabar com o processo. Tem que ser último caso. A ideia tem que ser sempre de realinhar e seguir em frente. Se você teve desde o ponto de partida coerência naquilo que você propôs e naquilo que você trabalhou, as coisas vão melhor.                                  

Em qual estágio você vê o futebol brasileiro atualmente? O que tem achado da qualidade do nosso jogo?

Ruim. Muito ruim. E aí entra a questão do calendário  e entra o assunto "quem está jogando esperando o contra-ataque vem ganhando". Isso é uma estatística fria, que pode mudar ano que vem. E as pessoas vão dizer que foi feito o que para mudar isso? O calendário te força a isso, você opta pelo mais simples, o mais seguro. E as equipes que precisam propor jogo vão se expor mais e para se expor você tem que ter qualidade de jogo, trabalho ofensivo. Nós só temos trabalho defensivo. A minha bronca com a CBF vem disso, ela utiliza a Seleção para dizer que está tudo bem, mas está tudo mal. A realidade do futebol brasileiro é uma e da seleção é outra. Ela só vem bem graças ao profissional inteligente que é o Tite. Porque tem conceitos claros e conceitos importantes para o que é o futebol atual. 

Nós vivemos uma discussão de "boleiro vs acadêmico", do "tatiquês"... Você acha que é um momento de ruptura no modo de tratar o futebol? Até em nível de vocabulário mesmo?

O que mais me irrita é isso. Por exemplo, no jornalismo, deveriam usar termos antigos que não se usam mais. Então ninguém fala disso. Você tem situações que tudo está mudando. Essa é a justificativa que tem para criticar os termos atuais. Esses dias eu ouvi um cara dizer: "no meu tempo era contra-ataque, hoje é transição". Não tem nada a ver uma coisa com a outra! Contra-ataque é o momento que você recupera a bola. Então para melhor entendimento você vai dividir em quatro fases: Fase defensiva, fase ofensiva, transição defensiva e transição ofensiva. E têm várias opções de fase defensiva, fase ofensiva e transições. Tem vários tipos.

Se bate muito na questão da imprensa. Falam que ela não tem importância na qualidade do jogo. Você acha que a imprensa é importante nessa construção de um futebol melhor?

Muito. Eu posso dizer isso porque já passei por muitos países no futebol, uns mais desenvolvidos e outros menos. Eu já vi e ouvi discussões de muito bom nível, em que você faz as pessoas entenderem. Se não há o desdém da imprensa em relação as novas terminologias, se não há crítica, vão usar de forma mais uniforme. Você vai induzir as pessoas a verem futebol dessa maneira. E outra coisa que falam: "o Brasil é o país do futebol." Isso é uma falácia! A paixão é tão ou mais exacerbada em outros lugares. Você vai na Turquia e é uma coisa de louco, só para te dar um exemplo. Aqui nós não sabemos torcer, só queremos ganhar. Torcer é o torcedor que compra carnê anual, o time está lutando para não ser rebaixado e ele está com o estádio cheio. Isso precisa ser falado. Mas falam? Ninguém fala. Todo mundo fala o que as pessoas querem ouvir, isso é populismo. E isso também é competência da imprensa. Precisamos de competência, de argumento. Com argumento, se tem conhecimento. Vocês nesse papel são importantes. Tem que mudar isso. Se não mudar, ficaremos estagnados. A imprensa é fundamental. Temos que parar com essa briga entre seguimentos, todos são importantes. Mas os verdadeiros protagonistas são jogadores e o público.

Como tem visto o momento do futebol peruano? Acompanhou a trajetória deles até a Copa do Mundo?

O jogador peruano é de qualidade. Só que a conjuntura de lá induz ele a ser displicente. Eles sofrem defensivamente, isso é histórico. Eu lembro do tempo que eu passei lá, tínhamos grandes resultados fora de casa porque não precisávamos se expor tanto no ataque. Em casa, como tinha essa obrigação de sair mais para o jogo, você falhava.

E como você vê a subida de nível dos centros mais periféricos da América Latina no cenário atual? E sobre a obrigação dos brasileiros "atropelarem" todos que impomos? 

Vejo gente torcendo o nariz e comparando a Venezuela com o futebol brasileiro. Isso é inadmissível, deveriam comparar eles com eles mesmo. Ver a realidade de lá e daqui. Essa arrogância de olhar só para nós é complicada. Houve evolução, isso é inegável. Quem não consegue ver isso é porque só consegue olhar aqui pra dentro. Seja analista, torcedor... Aí você vai em termos sociais e culturais,  falam dos americanos, que eles só olham para o próprio umbigo. E a gente no futebol só olha para o nosso umbigo, somos arrogantes nisso porque fomos pentacampeões. 

Pra fechar, professor, é uma pergunta que eu sempre faço para todos que entrevisto. Ela é bem reflexiva. Para você, o que é jogar bem?

Hoje há uma dificuldade de entender equipes que jogam como o Corinthians, com solidez defensiva. Não é feio, é eficiente. Isso é jogar bem! Interpretar a tua estratégia e executar. Isso é jogar bem. Vejo jogos por 5-4, todo mundo falando que foi um jogão; pra mim não foi. Tomar quatro gols é jogar mal. Porque não analisamos jogo, analisamos resultado. Enquanto isso prevalecer, estaremos afastados da realidade do futebol atual. Jogar bem é executar o seu plano de maneira eficaz, seja qual seja ele. Fonte: ESPN


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